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Home»Entretenimento»Por que o Sudeste recebe mais dinheiro público para fazer cinema do que o restante do país?
Entretenimento

Por que o Sudeste recebe mais dinheiro público para fazer cinema do que o restante do país?

agosto 11, 2026Nenhum comentário1 Visitas

Fernanda Torres e Selton Melo falam sobre parceria em ‘Ainda Estou Aqui’
Reprodução/TV Globo
Durante a cerimônia do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, na terça-feira (4), Kleber Mendonça Filho fez um discurso incisivo ao receber o troféu de Melhor Longa-metragem de Ficção por “O Agente Secreto” — que, em situação inédita, foi eleito vencedor empatado nos votos com “Manas”.
Em sua fala, o diretor pernambucano cobrou uma aproximação da Academia Brasileira de Cinema com realizadores de estados distantes do Sudeste.
“Já vim aqui outras vezes com outros filmes e há um ar forte sudestino que a gente precisa dissipar um pouco na Academia”, cobrou Kleber.
A declaração expõe um desbalanço que vai além dos prêmios. Que também está presente na forma como o poder público financia o cinema brasileiro.
Rio e SP puxam concentração regional
Kleber Mendonça Filho durante discurso no Prêmio Grande Otelo, quando defendeu maior aproximação da Academia Brasileira de Cinema com realizadores e produtores de estados fora do Sudeste.
Divulgação
Segundo o Relatório Anual de Gestão do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), o Sudeste concentrou 66,29% dos recursos investidos pelo fundo em 2025. O equivalente a R$ 374 milhões.
O desequilíbrio fica ainda mais evidente quando o olhar se estreita para dois estados: ainda segundo o levantamento, Rio de Janeiro e São Paulo, juntos, representam 57,25% desse montante. Mais da metade de toda a verba anual do FSA.
Na outra ponta, Norte, Nordeste e Centro-Oeste receberam apenas 22,63% do valor distribuído pelo fundo. Ou seja: juntas, as três regiões somaram menos de um terço do que foi destinado ao Sudeste sozinho.
E não estamos falando de qualquer fundo. Administrado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), o FSA é uma das principais fontes públicas de financiamento do audiovisual brasileiro.
Veja abaixo a distribuição completa 👇:
Como os recursos do FSA foram distribuídos pelas regiões do Brasil em 2025? Confira os números e entenda onde o dinheiro público chegou.
Arte g1
De onde vem o dinheiro
Agora no g1
O Fundo Setorial do Audiovisual é abastecido principalmente pela Condecine, a Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional.
Os recursos vêm de cobranças feitas a empresas que atuam nos setores de telecomunicações e audiovisual, divididas em três modalidades:
Condecine Teles — paga pelas operadoras de telecomunicações. É a principal fonte do fundo.
Condecine Título — recolhida no registro de obras para exibição comercial.
Condecine Remessa — incidente sobre a remessa de lucros ao exterior por obras estrangeiras.
Mas, se o dinheiro é público e existem regras para reduzir as desigualdades regionais, por que os recursos continuam tão concentrados no Sudeste?
Programação do cinema em Cruzeiro do Sul não segue a nacional
Adelcimar Carvalho/G1
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Modelo favorece quem já está estruturado
Set de filmagens do curta-metragem “Do Tanto de telha no Mundo”
arquivo pessoal/Bruno Brasileiro
Três fatores ajudam a explicar como essa concentração se mantém:
🎞 Histórico de mercado: Linhas de financiamento distribuem recursos com base nos resultados anteriores das empresas. Como as grandes produtoras e distribuidoras do país estão historicamente sediadas no Sudeste, são elas que mais acumulam pontuação nesse critério. Um ciclo que se retroalimenta.
🎬 Capacidade de contrapartida local: Estados com agências audiovisuais estruturadas, como o Rio de Janeiro, que conta com a RioFilme, conseguem firmar parcerias de maior porte com o FSA. Poucos estados têm estrutura semelhante para viabilizar aportes desse tamanho.
🎥 Concentração de empresas aptas: Os recursos, desta forma, tendem a se concentrar onde já existe um número maior de empresas capazes de cumprir os requisitos de contratação e de entrega dos projetos.
‘Roliúde Nordestina’: a pequena cidade da Paraíba que virou queridinha do cinema nacional
Reprodução/TV Globo
Como medir o potencial e o sucesso de um filme?
Para Lia Bahia, doutora pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e estudiosa das disparidades regionais do audiovisual, parte da explicação para o que ela chama de “indústria concentracionista” está na forma como o poder público escolhe quais filmes financiar e mede o retorno desses investimentos.
“Políticas públicas não podem ter métricas de mensuração de um filme iguais às do mercado, que avaliam retorno de cifras das bilheterias. Elas precisam considerar o capital simbólico dos filmes, os debates que eles geram e as críticas feitas em torno deles”, afirma.
Segundo a pesquisadora, a lógica de recursos “reembolsáveis” e “retornáveis” do Fundo Setorial do Audiovisual também contribui para uma produção mais engessada.
Nos recursos reembolsáveis, a produtora recebe o dinheiro como um financiamento e precisa devolvê-lo ao fundo, com juros. Já os recursos retornáveis são vinculados à receita do próprio filme: parte do que a obra arrecadar volta para o fundo.
Para Lia Bahia, essa lógica faz com que realizadores passem a adaptar seus projetos não às próprias criações, mas às exigências dos editais.
As regras que deveriam equilibrar o jogo
O júri do 78º Festival de Cinema de Cannes observa o diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho receber o prêmio de Melhor Diretor pelo filme “O Agente Secreto” durante a cerimônia de encerramento da 78ª edição do Festival de Cinema de Cannes, em Cannes, sul da França, em 24 de maio de 2025.
Antonin THUILLIER / AFP
A legislação já prevê, contudo, mecanismos para reduzir a concentração regional. A Lei nº 11.437, criada em 2006, determina que pelo menos 30% dos recursos do FSA sejam destinados a projetos das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O Comitê Gestor do fundo (CGFSA) estabelece ainda uma cota mínima adicional de 10% para a região Sul e para os estados de Minas Gerais e Espírito Santo.
Na prática, porém, os dados de 2025 mostram que as regras de regionalização não foram suficientes para evitar a concentração dos recursos no Sudeste.
O g1 procurou a Ancine para saber por que a distribuição permanece tão concentrada, apesar das cotas previstas em lei. A agência não respondeu.
O peso do Sudeste também na Academia
Fotografia analógica de Mila Petrillo do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro
Mila Petrillo/Reprodução
A crítica sobre disparidades regionais apontada por Kleber Mendonça Filho também aparece na composição da Academia Brasileira de Cinema, entidade responsável pela organização do Prêmio Grande Otelo.
Dos 356 sócios da entidade, 279 estão no Sudeste. Como são eles que votam em todas as categorias da premiação, a concentração regional costuma se refletir também nas escolhas do prêmio.
É o que mostra a pesquisa feita pelo cineasta Bernardo Lessa e divulgada pela página Tanto Cine: 19 dos 27 estados brasileiros nunca ganharam um troféu do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Desses, 12 nunca tiveram sequer uma indicação.
O levantamento aponta ainda que das 2.427 indicações registradas nas 25 edições da premiação, 2.122 foram para obras do Sudeste.
Em resposta ao g1, a Academia Brasileira de Cinema justificou que a concentração regional de seus sócios reflete, “guardadas as devidas proporções”, a distribuição das produtoras ativas no país.
Segundo dados da Ancine citados pela Academia, 66,7% das produtoras registradas estão no Sudeste.

A Academia também destacou iniciativas para ampliar o acesso ao prêmio fora do eixo Sudeste, como a Mostra Prêmio Grande Otelo, que promove sessões gratuitas de filmes indicados por voto popular. E afirma que em 2026, essa mostra levou 16 filmes a cinemas parceiros em 31 cidades de 14 estados, como Alagoas e Pará.
Kleber Mendonça Filho com Gabriel Leone nos bastidores do filme ‘O agente secreto’
Divulgação/Victor Jucá

Fonte: G1 Entretenimento

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